O preço dos alimentos deve ficar ainda mais caro. Ao menos, é nisso que apostam alguns analistas no setor do agronegócio. Em parte, esse aumento deve ocorrer como reflexo da alta no frete, que gera um grande desafio para as empresas deste ramo. Mas o que motiva esse cenário?
Para o Grupo de Pesquisa e Extensão em Logística da Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz" (Esalq-LOG), considerado referência no assunto, existem quatro fatores que explicam essa escalada nos preços. Segundo Fernando Bastiani, analista de pesquisa de mercado do grupo, são eles:
Expectativa de safra recorde para a soja
Atrasos e adiantamentos na colheita
Aumento no preço do diesel
Portos com alta demanda
Sobre a produção recorde da oleaginosa, ele afirma que "algumas consultorias já falam em 170 milhões de toneladas, um aumento de mais de 20 milhões em relação ao ano passado". Bastiani também destaca como estados importantes do agro (MG, PR, MS, GO, MA, TO, PI, BA, PA) estão com a colheita adiantada em relação à safra anterior.
"Esse cenário vem causando uma grande concentração das atividades de colheita no Brasil, provocando uma grande competição por veículos entre os locais de produção, que disputam no preço para atrair os autônomos, principalmente", afirma.
Para sua análise, o grupo da Esalq ainda coletou dados de seu Sistema de Informação de Fretes. Criado em 1997, o projeto levanta semanalmente cerca de 5 mil informações sobre o frete de mais de 50 produtos, dentre eles café, farelo e óleo de soja.
"A colheita da soja se intensificou muito desde a última semana de janeiro, período no qual foi perceptível maiores variações nos preços de fretes até o momento", diz Bastiani. O analista também forneceu um mapa que ilustra a variação média de frete por estado. O números foram compilados na sétima semana de 2025, ou seja, entre 10 e 16 de fevereiro.
O analista destaca o aumento no Mato Grosso, o maior produtor nacional de grãos, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). "O MT lidera com aumentos médios de até 60% nos preços em relação ao início do ano, porém tem rotas que o aumento ultrapassou os 100% (frete mais do que dobrou)", afirma.
Em uma das principais rotas do Brasil, entre Sorriso (MT) e Itaituba (PA), o aumento foi de 67%, por exemplo. Isso significa que o frete aumentou de R$ 195 por tonelada para R$ 325 por tonelada.
O cenário pessimista de alta também foi confirmado pela Fretebras, plataforma que possui 66.440 opções de frete para produtos diversos, dentre eles milho, soja e outros alimentos. Em nota divulgada em 24 de fevereiro, o diretor-executivo da empresa sediada em São Paulo (SP), Federico Vega, afirma que o momento gera uma "tempestade perfeita", combinando "oferta, demanda, alta nos preços de pneus e combustíveis com a falta de caminhoneiros".
“O reajuste pode ficar entre 7% e 12% por quilômetro rodado e a expectativa é que o pico da demanda ocorra em março", crava o empresário. Para se ter ideia, na Fretebras, uma rota entre o Mato Grosso e o Pará chega a 1.078 quilômetros.
Como resultado desse cenário, é bem provável que a alta no frete do setor acabe afetando o bolso do consumidor. Em 2022, uma pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) com 2,5 mil empresários apontou que o custo do frete representa, em média, 15% do valor final dos produtos.
“Este ano, esperamos uma competição acirrada pelas cargas, com empresas disputando o mesmo caminhoneiro, o que naturalmente aumenta os preços", crava Vega sobre o cenário em 2025. Para o analista da Esalq-LOG, é difícil que esse cenário seja resolvido no curto prazo.
"Cerca de 60% do transporte de soja acontece por rodovia. Precisamos de investimentos de longo prazo nos modais ferroviário e hidroviário, de modo a acompanhar com mais velocidade nosso aumento de produção e diminuir essa dependência das rodovias", defende.
Bastiani também apoia que um aumento na capacidade de armazenagem do Brasil poderia oferecer um alívio futuro. "Nossa capacidade de armazenagem é 70% em relação ao volume total produzido de grãos, ou seja, ter um sistema mais robusto pode facilitar o alongamento do escoamento da safra e diminuir a sazonalidade na demanda por transporte."
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